Uma pesquisa conduzida por investigadores da saúde global do New York-Presbyterian Hospital/Weill Cornell Medical Center e especialistas em câncer em Nova York, Qatar e Haiti sugere que a aspirina deve ser avaliada por sua capacidade de prevenir o desenvolvimento de câncer cervical em mulheres infectadas pelo HIV.

O relatório, publicado na edição atual da revista Cancer Prevention Research, diz que esta solução simples e barata tem o potencial de proporcionar enormes benefícios para as mulheres no Caribe, América Latina e África, que sofrem de uma taxa desproporcionalmente alta de morte por câncer cervical.

O uso preventivo de aspirina poderia ser especialmente útil no Haiti, onde o câncer cervical invasivo é uma causa comum de morte em mulheres infectadas pelo HIV. O país também tem a maior incidência de câncer cervical no mundo e uma das mais altas taxas de infecção pelo HIV no Hemisfério Ocidental.

“Essas jovens pacientes – muitas das quais eram mães e o único sustento de suas famílias – se esforçaram para controlar o HIV com terapia antirretroviral, apenas para desenvolver e morrer de câncer do colo do útero”, diz o pesquisador principal do estudo, Daniel Fitzgerald, professor associado de medicina na Weill Cornell Medical College, que viveu no Haiti por sete anos e continua a tratar pacientes de HIV no país.

Fitzgerald é um membro-chave do Weill Cornell Medical College Center for Global Health e dirige a colaboração da faculdade com GHESKIO, uma organização não-governamental haitiana dedicada a fornecer serviços clínicos, pesquisa e treinamento em HIV/AIDS desde 1980.

“Os resultados deste esforço colaborativo vão fazer uma diferença real para mulheres que vivem em uma das nações mais pobres do mundo”, diz. “É maravilhoso que médicos e cientistas de diferentes partes do mundo sejam capazes de se unir para resolver uma questão tão crítica de cuidado.”

Os pesquisadores descobriram que o HIV induz a expressão da via inflamatória COX-2/prostaglandina E2 (PGE2) em amostras de tecido cervical de mulheres haitianas que foram infectadas com o HIV. As descobertas relacionam dois fatos conhecidos juntos: que o HIV causa inflamação crônica; e que a PGE2, que é elevada durante a inflamação, está ligada ao desenvolvimento do câncer em vários tipos de tumores, incluindo o câncer cervical.

O fato de que o HIV estimula a produção de PGE2 no tecido do colo do útero não era conhecido antes deste estudo, dizem os pesquisadores.

Isso pode ajudar a explicar por que as mulheres soropositivas têm cinco vezes mais chances de desenvolver câncer cervical invasivo do que mulheres soronegativas. Esse fato também sugere que os inibidores da molécula de COX-2 (que contribui para a produção de PGE2) pode romper a ligação entre o HIV e o câncer cervical. A aspirina é um dos inibidores de COX mais baratos e eficazes.

“Os resultados deste estudo fornecem novos insights sobre a relação entre infecção viral e inflamação, dois condutores conhecidos do desenvolvimento de câncer”, diz o autor sênior Andrew Dannenberg, diretor do Weill Cornell Cancer Center em NewYork-Presbyterian/Weill Cornell e Henry R. Erle, médico do Roberts Family Professor de Medicina no Weill Cornell Medical College.

“Futuros estudos serão necessários para determinar se agentes semelhantes à aspirina, conhecidos inibidores da produção de prostaglandinas, podem reduzir o risco de câncer cervical nesta população de alto risco”, acrescenta.

Os pesquisadores examinaram os níveis de COX-2 e PGE-M (um metabólito estável de PGE2) em três grupos de mulheres e encontraram aumento dos níveis de ambas as moléculas em 13 mulheres que estavam co-infectadas com HIV e HPV. COX-2 e PGE-M também foram elevados em 18 mulheres infectadas pelo HIV com um teste de HPV negativo e mais baixos em 17 mulheres HIV-negativas, que também não estavam infectados com o HPV.

As descobertas demonstram que a infecção por HIV está associada ao aumento do COX-2 cervical e elevados níveis sistêmicos de PGE2, afirma Fitzgerald. Co-infecção com o HPV aumenta o risco de câncer cervical. Futuros estudos tentarão definir a população de mulheres que podem se beneficiar do uso diário de aspirina ou inibidores relacionados.

Fitzgerald, juntamente com médicos do GHESKIO e a co-autora do estudo, Cynthia Riviere, iniciou o programa de pesquisa clínica para cuidar e prevenir o câncer cervical em mulheres HIV-positivas no Haiti depois que notaram um aumento nos casos reportados.

“O objetivo é dar aos pacientes no Haiti o mesmo padrão de tratamento encontrado em qualquer centro de câncer,” diz Arash Jeremie Rafii Tabrizi, professor assistente de medicina genética do Weill Cornell Medical College, no Qatar, que tratou mulheres na clínica GHESKIO. “Estamos nos concentrando em procedimentos que vão permitir uma redução da morbidade – já que esta é uma grande preocupação na população – assim como uma redução do risco de recorrência.”

A pesquisa foi financiada pelo National Cancer Institute, Fogarty International Center e Flight Attendant Medical Research Institute.

Fonte: NewsWise

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