Pesquisa de larga escala aponta associação entre uso da pílula e do DIU com a doença, mas números absolutos são pequenos

Os anticoncepcionais hormonais mais uma vez são tema de estudo que os associa com o risco de câncer de mama. Uma pesquisa de larga escala publicada no New England Journal of Medicine conclui que a ingestão da pílula, mesmo de baixa dosagem, e também o uso de dispositivos com o DIU de Mirena, aumentam as chances da doença em mais de 20%, especialmente após os 40 anos.

O estudo acompanhou mais de 1,8 milhão de mulheres dinamarquesas por mais de uma década e desafia a noção de que os anticoncepcionais modernos são totalmente seguros. As evidências apontam que para cada 100 mil mulheres, o uso da pílula seja responsável por 13 casos adicionais de câncer de mama por ano. Apesar de impactante, o número é pequeno em termos absolutos.

Foram levadas em consideração as diferentes composições de anticoncepcionais usadas pelas mulheres estudadas, incluído pílulas e dispositivos como o DIU intrauterino com liberação de hormônio. Segundo os pesquisadores, a progesterona sintética (progestina), um dos hormônios comumente encontrados nos contraceptivos, ao lado do estrogênio, parece ser o responsável pelo risco de câncer de mama.

O estudo mostrou ainda que o risco é maior com o aumento da idade, especialmente após os 40 anos. Isso pode se dar porque as chances de câncer de mama já são maiores conforme as mulheres envelhecem, mas também por conta do tempo de exposição aos hormônios dos anticoncepcionais. O estudo mostrou que o risco é maior entre mulheres que com mais de 10 anos de uso das medicações. No entanto, entre aquelas que usaram hormônios por cinco anos ou menos, o risco ainda sim persistiu depois de pararem de usar.

Por outro lado, os autores reconhecem que o estudo é limitado por não ter levado em consideração outros fatores que podem explicar o risco aumentado de câncer, como atividade física desempenhada por essas mulheres, amamentação, consumo de álcool e dieta.

Atenção para exposição e casos familiares

Como o risco parece aumentar com idade e tempo de exposição, os especialistas recomendam que mulheres pensem em alternativas ao anticoncepcional hormonal após os 40 e que discutam com seus ginecologistas as melhores estratégias.

“A decisão deve ser da mulher em conjunto com o ginecologista, mas ela deve pensar com carinho nessa possibilidade”, pontua o oncologista clínico especializado em câncer de mama Gilberto Amorim, do Grupo Oncologia D’Or. “Imagina uma moça que começou a tomar pílula com 18-20 anos, não teve filhos (ou teve um) e chega aos 40.”

O alerta vale especialmente para mulheres com risco aumentado da doença e casos familiares. Para esse grupo, o oncologista recomenda um acompanhamento mais próximo com o ginecologista e mastologista, “Um  acompanhamento mais de perto com intervalos menores, se possível com mastologista é importante para discutir outras opções de contracepção e em casos de famílias com alta incidência, um aconselhamento genético e exames mais precoces”, diz.

O médico destaca que para população em geral a pílula ainda traz mais benefícios que riscos. Alguns estudos relacionam o uso do anticoncepcional com menores riscos de outros tipos de câncer, como ovários, endométrio e colo de útero.

“O estudo é importante, sobretudo por mostrar que o DIU não é tão seguro quanto se pensava, mas não desmerece os tantos benefícios que o anticoncepcional traz de modo geral”, afirma. “Riscos e benefícios precisam ser balanceados e, de modo geral, sobretudo as mais jovens não devem parar de tomar a pílula.”

 

 

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.