Médica radio-oncologista compartilha sua experiência pessoal e aprendizado com o diagnóstico de câncer de seu pai, também médico

 

Karina Moutinho

Oncologista clínica da Oncologia D’Or SP

A frustração, infelizmente, muitas vezes faz parte do dia a dia da profissão médica. No entanto, a maioria das escolas não nos ensina a lidar com ela. Vamos aprendendo na prática como dar um diagnóstico de doença crônica ou de morte, e grande parte de nós acaba desenvolvendo um mecanismo de defesa básico para sobrevivermos: nos tornamos de certa forma alheios ao problema de nossos pacientes. Mas como podemos ser bons médicos sem ter empatia por aqueles que nos confiam a vida? Foi há alguns anos que aprendi, da forma mais dolorosa, a maior lição que nenhuma faculdade poderia ter me ensinado.

Meu pai, cirurgião oncológico, foi sem dúvida a maior influência para que eu me tornasse médica. Minha infância foi cercada por instrumentais cirúrgicos e, com meus 9 anos de idade, gostava mais de brincar com pinças de laparoscopia do que de jogar videogame. Aprendi com ele a amar a medicina! Segui, na oncologia, a área que ele dizia ser a mais bonita: a radioterapia, onde aprendíamos a associar imagem, física e biologia e transformá-las em tratamento – quase uma arte.

Há cinco anos, antes de se submeter a uma cirurgia eletiva, meu pai sussurrou ao pé do meu ouvido: “Peça para realizarem um inventário bem detalhado da cavidade abdominal, principalmente nas goteiras”. Com toda a sua experiência, e para nossa enorme tristeza, ele mostrou o quanto era craque. Foi lá que encontramos todos os sinais de que ele estava com câncer. Naquele momento, comecei uma busca desesperada por artigos sobre os achados cirúrgicos, mas a probabilidade era muito alta de que o tumor fosse maligno. A gente se engana e pensa que essa situação jamais poderia acontecer conosco, dentro da nossa família. Não… o destino não seria tão irônico a ponto de permitir que aquele homem fosse enfrentar, na sua própria pele, aquele velho inimigo, contra quem tantas batalhas travou. Muitas vezes ganhou, mas tantas outras perdeu…

Meu primeiro ímpeto como filha foi ser médica, tomar para mim as maiores decisões. Tenho irmão e madrasta médicos também. Assim, as discussões não foram poucas. E a maior lucidez veio dele próprio: vamos procurar um médico que não seja da nossa família e em quem confiemos. Trouxemos meu pai para São Paulo, para aquele que considerávamos o melhor, mas mesmo assim, de forma completamente inadvertida, acabávamos discutindo o caso como se as mesas de almoço fossem os nossos “boards”. E meu pai estudava diariamente sobre sua doença. Quantos momentos lindos em família desperdiçamos discutindo a imuno-histoquímica, o resultado do PET-CT, os efeitos da quimioterapia. Quantas vezes vi meu pai consolar seus pacientes, amigos e colegas, quando era ele quem devia ser consolado…

Experimentamos a angústia de aguardar os resultados dos exames e ver a resposta da químio. Conhecer a história natural de um câncer metastático te tira o prazer de comemorar as pequenas vitórias das inúmeras batalhas do dia a dia do tratamento. Mas, depois de alguns meses de tratamento, passei a me permitir acreditar em milagres, parei de olhar os exames antecipadamente e passei a olhar meu pai, meu herói e o paciente mais obediente que eu conheci. Fez todos os tratamentos propostos, lutou bravamente cada uma das suas próprias batalhas e, sobretudo, acreditou nos seus médicos e foi fiel aos princípios da oncologia até o fim. E eu me permiti ser filha, não médica, e a partir daquele dia passei a viver cada dia como único.

Em meio a tantas internações, cirurgias e quimioterapias, meu próprio processo de transformação foi inevitável. Passei a enxergar meus chefes e colegas com outros olhos, e admirações ou decepções foram inevitáveis. Existem pessoas que não honram o avental que usam, mas há também aquelas que elevam a medicina a um amor sublime. A vida é uma dádiva e, piegas ou não, devemos respeitar e jamais esquecer disso. Aprendi que mesmo os bons médicos passam pouco tempo com seus pacientes e que é a equipe multidisciplinar quem de fato está presente nos momentos mais difíceis. Entendi que cada pessoa é única e tem total direito de dizer o que deseja ou não seguir como tratamento, e nosso papel como médicos é sugerir, orientar, mas nunca decidir monocraticamente. Jamais saberemos onde doem os calos alheios. Sobretudo, compreendi que, mesmo quando nada há para ser feito, apenas olhar no olho, dar um abraço ou um aperto de mãos pode ter repercussões inacreditáveis.

Foi na última semana de vida que meu pai ensinou a maior das lições. Jamais estaremos preparados para a morte! Meu pai recusou internação quando já sabia que sucumbiria à doença. Cuidar de alguém nos momentos finais é exaustivo, estressante emocionalmente, porém gratificante. Cuidar de alguém que você ama tão intensamente te faz entender de forma muito clara que a vida é um ciclo, que somos efêmeros e que perdemos tempo demais com o que não importa.

No dia em que meu pai morreu, renasci, como uma filha mais presente, uma mãe mais tranquila e, mais que tudo, como uma médica mais humana.

Karina, filha do Vitor Moutinho

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