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A reunião anual da ASCO deste ano trouxe alguns estudos clínicos interessantes em hematologia com novas incorporações tecnológicas e medicações promissoras para melhor entendimento e tratamento das doenças oncohematológicas, como mieloma múltiplo, linfoma e síndromes mielodisplásicas. Confira abaixo os destaques comentados pela hematologista Juliane Musacchio, coordenadora de hematologia do Grupo Oncologia D’Or e responsável técnica pelos transplantes de medula óssea no Hospital Quinta D’Or, no Rio de Janeiro.

Mieloma múltiplo

Em mieloma múltiplo, o destaque foi a atualização dos resultados com daratumumabe, um anticorpo monoclonal anti-CD38, em associação com lenalidomida e dexametasona (estudo POLLUX) e em conjunto com bortezomibe e dexametasona (estudo CASTOR). No primeiro estudo (POLLUX), com um seguimento mediano de 25,4 meses, foi demonstrada uma sobrevida livre de progressão em 24 meses (SLP) de 68% vs 41%, com benefício para o braço que utilizou o anticorpo anti-CD38 (HR 0,41; P<0,0001). Já no estudo CASTOR, com um acompanhamento mediano de 19,4 meses, a SLP em 18 meses foi de 68% para o esquema DVd vs 12% para o protocolo Vd (HR 0,19 P< 0,0001). Em nenhum dos 2 estudos, o grupo de pacientes que utilizou esquema quimioterápico mais o daratumumabe atingiu a mediana de SLP. Assim, esses estudos forneceram um racional para um estudo de fase 1b com daratumumabe em associação com o esquema KRd (carfilzomibe, lenalidomida e dexametasona) em pacientes com mieloma múltiplo recém-diagnosticado. Os resultados estão sendo bastantes promissores, com uma taxa de resposta global de 100% apos 4 ciclos e SLP em 12 meses de 94%, com boa tolerabilidade e sem impacto na coleta de células-tronco para o transplante autólogo de medula óssea.

Linfoma

Em relação às doenças linfoproliferativas, a principal discussão foi a nova classificação de linfomas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com novas entidades nosológicas,  feita em 2016 e como isso está impactando a prática clínica diária, conforme resumo apresentado na tabela abaixo:

tabela

LMC e imatinibe

O pesquisador Brian J. Druker, diretor do Knight Cancer Institute da Oregon Health & Science University, recebeu, durante a sessão plenária do evento, o Prêmio de Ciência em Oncologia (Science of Oncology Award and Lecture) pela sua contribuição fundamental no desenvolvimento e aprovação do imatinibe, que transformou o manejo da leucemia mieloide crônica (LMC). O imatinibe, um inibidor especifico de tirosina-quinase BCR-ABL, recebeu a aprovação mais rápida na história da US Food and Drug Administration (FDA) e transformou uma doença anteriormente fatal em uma condição gerenciável. Aproximadamente 90% dos pacientes com LMC que são tratados com imatinibe ainda estão vivos 5 anos após o início do tratamento. O trabalho de Druker sobre o imatinibe introduziu o conceito de terapia direcionada e lançou as bases para uma nova direção na oncologia: a medicina de precisão, que se concentra em uma abordagem personalizada para o tratamento do câncer.

Confira um video com a Dra. Juliane Musacchio sobre os destaques de hematologia da ASCO no destaque.

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.